sábado, 5 de junho de 2010

No meio do mato, às margens do rio Uruguai.

Seiscentos quilômetros separados da selva de pedra. O que podemos encontrar e quais os motivos que nos fizeram vir para tão longe? Seria apenas o rio e seus peixes ou a amizade dos que estavam aqui? Seria apenas a vontade de relembrar a vida que tive na infância missioneira? Seria essa necessidade de recuperar o tempo que perdi de convívio com o meu pai ou existem outras motivações por querer estar aqui?

Abdicamos de conforto e de estarmos em nossas casas para enfrentar intempéries do tempo por muito mais do que se imagina. Temos a necessidade de remexer o nosso espírito e de quebrar a inércia da vida atual, onde os homens são cada vez mais superficialmente importantes.

Os companheiros de pesca do meu pai possuem em média 60 anos de idade e passam a maior parte do tempo brincando uns com os outros, comemorando e relembrando da época em que eles possuíam exatamente a minha idade. Com saudade, porém com alegria e isso me faz notar o quanto é importante se viver intensamente cada dia.

Me preocupo com o que vejo hoje em dia em meus contemporâneos amigos, nenhum deles acompanha com plenitude esse exercício de “quebrar a inércia da vida atual”.

Mesmo assim vejo que aos poucos esses companheiros valorosos de pesca estão cada vez mais desistindo de permanecer em ascendência com novos sonhos e aos poucos se contentam em apenas curtir suas aposentadorias numa boa. Talvez um dia eu entenda melhor essa parte da história.

Por enquanto é melhor me concentrar no que aprendo e no que aproveito nesses dias longe da correria e das grades invisíveis da civilização moderna e globalizada.

O amor é o segredo de tudo, aqui amamos mais a natureza e tudo o que ela nos oferece, amamos mais a família que sentimos falta, os amigos e até mesmo o conforto que temos. Notamos a simplicidade das pessoas e de como somos tolos em acreditar que os homens são os seres mais incríveis desse planeta...somos apenas parte dele.

Aqui, no meio do mato, às margens do rio Uruguai, sou mais insignificante perante o planeta, mais livre e mais tranqüilo. Aqui, convivo com a simplicidade e com a verdade genuína. Estou onde um homem que estende a sua mão quer realmente te cumprimentar e onde os abraços só existem se forem sinceros.

Irônico mas é aqui, a 600 quilômetros de casa, que venho encontrar, comigo mesmo.



Moisés Barboza

Um comentário:

  1. Teus contemporâneos amigos estão parados à beira do caminho, sem tempo, sem sangue, sem sonhos, com a alegria congelada, procurando um canto tranquilo para adormecerem sem sono. Te admiro mano, não te deixas salvar, como recomenda Mario Benedetti no poema "linkado" abaixo.

    http://www.youtube.com/watch?v=v3C_dk4oi-k&feature=related

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